
Entre as ruas do Grande Pirambu, na periferia costeira de Fortaleza, ainda que estejam apagadas pelo tempo e cobertas por outros símbolos políticos, os graffiti e pixos
permanecem fincados nos muros. Por trás da façanha que captura até os olhares
mais desatentos, coletivos atuam dentro da comunidade por meio da arte para
legitimar sua própria existência em um mundo que pouco os reconhece.
O ARTEculando é um dos coletivos que se dispõe a preservar a manifestação
artístico-cultural marginalizada, além de difundir o conhecimento e a prática do
graffiti entre aqueles que existem no território. A iniciativa é feita por Caio Souza,
artista de rua, fundador da marca Hust Street e pesquisador na área de manifestações
artísticas e design, em parceria com Milena Raíssa, grafiteira, produtora
cultural e pesquisadora do Laboratório das Artes e das Juventudes (Lajus).
Embora tenha sido planejado desde novembro de 2023, a primeira articulação
ocorre apenas em fevereiro de 2025, sob o nome
"Explorando o Universo Colorido do Chico da Silva".


A maior proporção de residentes pretos é encontrada no Pirambu, um dos 87 bairros com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado “muito baixo” (0,229). Com 14,1 mil habitantes, 1.415 pessoas autodeclararam-se pretas ao IBGE, o equivalente a 10% da população residente
Obra Rinha de Galos, Francisco (Chico) da Silva. Foto/Reprodução
Os primeiros traços surgiram como um resgate da memória artística do Pirambu, se espalhando por grandes telas brancas, tábuas de madeira e pedaços de papelão. A inspiração vem de Chico da Silva, pintor e muralista que construiu sua trajetória no bairro e deu vida à Escola de Artes do Pirambu na década de 1960. O espaço reunia jovens moradores da comunidade em uma iniciativa de formação e produção coletiva que contribuiu para a propagação de cultura e geração de renda.
Refere-se às pinturas feitas em painéis permanentes ou paredes. Esse tipo de arte que busca se relacionar com a arquitetura e com o "retorno" às origens indígenas.


QUEM FOI CHICO DA SILVA
Nascido Francisco Domingos da Silva em 1910, em Alto Tejo – AC, era descendente de uma cearense e um indígena da Amazônia peruana. Em 1934, embarca para Fortaleza, e por volta de 1937 começa a desenhar em muros e paredes de casebres de pescadores no Pirambu, usando carvão e giz. Seus traços densos e sua técnica naïf são referências até hoje, apesar de ter morrido pobre.
casa pequena, rústica
Vem do latim nativus, que significa nascente, natural, espontâneo, primitivo, com uso frequente de cores vibrantes, espontaneidade e traços figurativos. Ela é produzida por autodidatas que não têm formação culta no campo das artes.
A relação entre a estética de Chico e o graffiti foi um dos eixos centrais da primeira oficina do coletivo. A proposta era conectar o colorido ancestral do artista, marcado pela influência indígena, referências ao bairro, seres místicos e cores que compunham seu universo com a vivacidade do graffiti. Ambas as expressões, apesar das técnicas pouco distintas, carregam em si a identidade e a afirmação de pertencimento que queriam trazer.
O ARTEculando planejou a oficina para ser acessível ao seu público-alvo, garantindo que sucedesse dentro do próprio território. A escolha do local, além da logística, trata-se de uma conexão direta com a identidade da comunidade. Como explica Caio:
“Se a pessoa se sentisse bem, sei lá, saindo da sua casa, andando uns 30 metros, como foi aqui no Cai Cai Balão, para ter uma oficina de grafite no seu território, você se sente mais bem, você já vê nos lugares a arte. Então acho que o diferencial é isso, é totalmente diferente você ir num espaço cultural, sei lá, na Aldeota, que você nem vê essas coisas lá, as pessoas de lá nem gostam disso”
Por meio de parcerias, diferentes espaços da comunidade foram escolhidos para sediar as oficinas.
O Cai Cai Balão, quadrilha infantil da Vila do Mar ativa desde 1980, recebeu a turma mirim para uma introdução ao graffiti com Isabelle Moura (Mira), grafiteira, trancista e estudante de Audiovisual na escola Porto Iracema das Artes. No Centro Cultural João Pedro Santos, na rua Nossa Senhora das Graças, jovens e adultos exploraram a técnica sob a orientação de Ana Eliza (Sunarte), artista plástica, artesã e educadora social e socioambiental. Já na Escola Estadual de Educação Profissional Marwin, adolescentes aprenderam com Cunhã – como é chamada nas ruas e preferiu ser identificada dessa forma — arte-educadora, grafiteira e designer de sobrancelhas.
Para que os pilares estivessem igualmente distribuídos, os educadores escolhidos também precisavam ter vivência periférica – de igual para igual. A ideia era não apenas transmitir a técnica artística, mas compartilhar um conhecimento enraizado na realidade dos próprios participantes.
"MOSTRAR QUE VOCE ESTA VIVO NO LUGAR ONDE NAO QUEREM QUE VOCE ESTEJA VIVO"
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Nas cidades atravessadas por dessemelhanças, os espaços de recreação e convivência são planejados de forma seletiva, favorecendo determinadas classes sociais e relegando outras à margem. Essa segregação urbana também se manifesta na forma como diferentes grupos são percebidos: enquanto alguns transitam livremente pelos centros visíveis da cidade, outros são confinados a territórios invisibilizados, onde a presença do Estado se faz mais pela repressão do que pelo suporte.
Para jovens, sobretudo, periféricos, deixar sua TAG ou xarpi nos muros da cidade é uma forma de apontar a sua existência. No interior esbranquiçado das escolas situadas em comunidades, a lógica não difere. O sistema frequentemente enxerga esses jovens como indivíduos inevitavelmente destinados à teia da criminalidade.
Assinatura do nome ou apelido do grafiteiro.
Pixar escrito ao contrário, a inversão das sílabas era utilizada como código para despistar a polícia. Hoje, é o codinome do pixador criado numa estética própria.
Nesse contexto, tanto a pixação, quanto o graffiti, se tornam formas de desafiar o desdém institucional. E o que acontece quando essa expressão artística ocupa o espaço escolar?
Em uma das oficinas, realizada na Escola Estadual de Educação Profissional Marwin, onde o coletivo levou a arte para dentro de um ambiente escolar com padrão do Ministério da Educação (MEC), os esboços do muralista precisaram ser pintados em quadros e papelões devido a rigidez das normas: “No padrão MEC, você não pode mexer nas cores brancas, tem que ser branquinho. Mas foi interessante ver o questionamento dos jovens. Eles perguntavam: ‘Por que isso não pode estar na parede?’. Tivemos que levar quadro, papelão. E eles queriam que estivesse na parede esse colorido, né?”, relata Caio.
Hoje, com as restrições de uso de telefone celular nas escolas para os estudantes, a intenção é que haja mais da disseminação da cultura popular e da arte.
“Mas eu acho que ainda é um caminho muito difícil, porque envolve um sistema muito grande. Vai além da diretoria e dos professores da escola. Ou ela caminha pelo MEC, começando pelo MEC, esse lance de trazer também essa cultura artística, que não é reconhecida como cultura artística"
"Ou começa pelos alunos. De um lado, é uma revolução feita por alunos. Do outro, é o dever de um sistema que condena a gente todo dia. Mas, na prática, eu acho que vai ser mais difícil de acontecer”, continua.

Diante a um sistema que silencia a cultura popular, o coletivo leva às ruas para a sala de aula. - Foto: Caio Souza / Reprodução: Acervo Pessoal
FAZENDO FUMACA, PERTURBANDO OS PORCOS
Antes da criação do coletivo, em 2022, Milena, Caio e Harrison Façanha (Harri), multiartista, se uniram para grafitar desenhos alusivos à Copa do Mundo do Catar nas paredes da rua São Raimundo. A ação, batizada de Colorindo Pirambu, contou com o apoio de uma verba, mas não teve continuidade devido à falta de recursos.
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Foto: Caio Souza / Reprodução: Acervo Pessoal
Em 2024, uma das artes foi coberta com tinta preta. Sobre o apagamento, uma mensagem em branco mórbido, lia-se "Ceará contra o crime. Disque denúncia 181".

O apagamento se fez por toda a região sob pixos e grafites anteriores. Foto/Arquivo pessoal.
“Eu fiquei muito chateada com isso, porque, querendo ou não, você tá apagando a declaração de um bairro que já sofre tanta violência, já sofre tanta coisa negativa. E aí, a manifestação cultural de jovens locais são apagadas pela polícia”, declara Milena.
A longo prazo, a intenção é resgatar o projeto e devolver as cores ao que foi apagado.
A marginalidade imposta e a arte que os singulariza fazem dos muros um território de disputa, onde jovens deixam suas marcas e guerrilham a cidade. O poder público – na figura da polícia, reivindicam as ruas como suas, determinando o que pode permanecer e o que deve ser apagado. As leis das ruas, no entanto, se impõem de forma própria, feitas por códigos não escritos, apenas vividos. Onde o respeito se conquista, e não decreta. Entre a repressão e a criação, a cidade se torna um espaço de embate. E cada um quer o seu.
Embora o Pirambu seja o seu ponto de partida de espaços, a intenção do ARTEculando vai além. Não apenas ocupar a sétima maior favela do País, mas espalhar-se por toda a metrópole periférica de Fortaleza. E possibilitar que crianças e jovens se vejam nos muros que os cercam.


