

Era uma manhã de segunda-feira no Poço da Draga, região próxima ao mar de Fortaleza, capital do Ceará. O sol atrapalhava os jovens que jogavam altinha com uma bola de vôlei. Mas, nesse dia, 4 de março de 2022, um barulho partiu do Mara Hope — um lado havia cedido e formado uma rampa. Ao tentar chegar mais próximo, a partir de uma ponte na Praia da Carminha, os jovens são barrados pela Indústria Naval do Ceará (Inace) que detém o terreno e o estaleiro onde o navio encalhou. O quaternário náufrago só pode ser visto da terra de longe.
É o prenúncio que João Alberto Sampaio,
o então comandante da Capitania dos Portos do
Ceará (CPCE), em 1987, estimou ao Diário do
Nordeste, que “talvez” o Mara Hope levasse 50 anos
para afundar. Sendo 2037 o juízo final do soçobro.
Mesmo assim, os últimos 15 anos de vida de um dos
pontos turísticos da cidade permitem vislumbrar
um pixo enorme.
Para quem passa na Avenida Leste Oeste, pode-se ver
com precisão o "FOX" estampado no navio.
A conexão do Mara Hope com a Feras of Xarpi (F.O.X) vai muito além de todas as degradações do naufrágio. É o início de uma revolução. O encontro da rua com o mar.
Soçobro é outro termo usado para descrever a perda de uma embarcação que afunda.
É emergido o underground da Praia de Iracema / Foto: Ismael Soares / Reprodução: Diário do Nordeste
O NOVO TRIPULANTE E A NOVA EQUIPE
Em 1984, o navio estava sendo rebocado para ser desmontado e vendido como sucata em Taiwan. Partindo dos Estados Unidos, o Mara Hope havia passado por um incêndio que afetou sua casa de máquinas. Em 6 de março de 1985, o trajeto é interrompido em Fortaleza. Parece que, como revolta, o transportador de petróleo de vários nomes decidiu encalhar.
A casa de máquinas de um navio é o compartimento onde estão instalados os motores e os comandos de propulsão. Também é conhecida como praça de máquinas.
O que contém a casa de máquinas?
Motor principal Motores auxiliares
Comandos de funcionamento Painéis elétricos Geradores Compressores
Insufladores Centrais de ar condicionado Motores elétricosSistemas de combate a incêndio
Em 1967, o transportador de petróleo foi batizado de Juan de Austria, em homenagem a um líder militar e filho ilegítimo do rei Carlos I da Espanha.
Prestando serviços para vários donos, mudando de nome para Asian Glory em 1979
E finalmente para Mara Hope foi definido em 1983, um ano antes do percurso rumo ao desmonte e venda.
Quatro meses após o encalhe, nasce mais um filho no bairro centenário da Barra do Ceará. SOSÔ nasceu diretamente com a presença do Mara. Uma ligação que, anos depois, iria além de uma visão distante entre o navio e o seu novo tripulante.
Aos 13 anos, SOSÔ começou a pixar. Atualmente, próximo dos 40, afirma que há uma relação do pixo com o interno de si próprio. “Mano, o pixo é o ego, por que tu vai fazer o teu nome e botar a tua sigla para cá? Porque, se você quisesse só pixar mesmo porque você gosta, tu ia botar frase. Tá querendo ser visto, tá querendo ser falado”, explica.
O ego não se torna algo necessariamente ruim, ser malino na rua é essencial. O importante, segundo SOSÔ, é entender que a novidade na cena chega para somar, afinal, “Pixador é Pixador”.
“Não somos mais que eles, não, vamos chamar os caras para somar, vamos riscar todo mundo junto”. O relato carregava um ânimo nostálgico. Em 1998, aos 14 anos, criou a Feras of Xarpi (F.O.X). Com o tempo, a tripulação foi aumentando: TAZ, BROW, SAGAZ e mais outras raposas foram integrando o pixo.

Faz parte do vocabulário em código criado nas ruas cariocas: a língua do TTK, originada nas prisões e difundido no bairro do Catete pelos pichadores com o objetivo de confundir as demais pessoas. As palavras são escritas ao contrário e têm suas sílabas invertidas. “Xar-pi” / “Pi-xar”.
Pixos feitos por TAZ em 2008 - Foto:: fox._8x / Reprodução: Instagram
Mas, o grande projeto iria nascer em 2015. TAZ, em 2008, por fazer triatlo, teve contato direto com o Mara Hope. No navio, fez apenas seu nome e o símbolo da F.O.X pequeno. Ao relatar para o grupo, SOSÔ espalhou uma ambição: “vamos lá, eu quero ir lá”. O desejo, embora alçado para 2015, não tomou novos rumos. SOSÔ faria seu até então último risco em 2013…
O PIXO QUE RE-EMERGE
Nove anos depois, em 2021, SOSÔ toma outras responsabilidades em sua vida. Casou e teve dois filhos. Começou a trabalhar e cotidianamente ia às ruas, mas, dessa vez, para atingir a meta de 80 corridas por dia na Uber. Mas a revolução nunca sai de quem é F.O.X.
“Aí bateu essa vontade de voltar, nós voltamos a pixar. Aí foi aonde eu peguei e falei, mano, nós vamos voltar a pixar. Que nem eu falo, que nem uma frase que tem aqui, o foco é a revolução”, SOSÔ conta, destacando a blusa laranja do coletivo, ao qual estava vestindo naquele momento.
E então a ação do Mara Hope tomou novos córregos.
“Dessa vez, nós não vamos só riscar lá, não. Nós temos que fazer uma letra que dê pra ver
lá da leste”.

Esboço Desenhado - Foto: fox._8x / Reprodução: Instagram
PRIMEIRO EMBARQUE
SOSÔ conseguiu chamar 15 pessoas para lançar o projeto. A ideia era que fossem três pessoas para cada letra, tendo mais uma de apoio para os materiais.
A primeira visita ocorreu com quatro pessoas: TAZ, BROW, SAGAZ e SOSÔ. Quatro horas da tarde foi o momento de partida da Ponte Metálica ao Mara Hope. O trajeto foi totalmente por nado.
Nadar até o Mara Hope não era o objetivo. Embora TAZ e SOSÔ fossem “nascidos aqui na praia”, foram atrás de barco para fretar, mas os valores e as condições não eram viáveis para o projeto feito sem nenhum apoio da prefeitura e de empresas privadas.
“Aí a gente conseguiu achar um pescador de lá. (Poço da Draga) Só que o que acontece? Ele cobrou 300 reais e ele não ia deixar a gente ir lá, no Mara Hope, ele ia deixar próximo, porque ele disse que não pode. Eles têm carteira para navegar e tudo. Ia dar problema para ele, ia deixar só nós perto e não ia pegar”, explica SOSÔ.
O retorno da primeira visita foi às 9 horas da noite. A ida definitiva seria no dia 14 de abril de 2024. Apenas TAZ, SOSÔ e BROW iriam dessa vez.
A imersão de como é ver o Navio estando em cima dele.
SEGUNDO EMBARQUE
Acompanhe na linha do tempo como foi cada momento da ação:

O UIVO DA LESTE
Oito metros de altura e quatro de largura. Este foi o resultado do projeto planejado desde 2015. Dez anos depois, o pixo no Mara ainda ecoa por quem anda na Terra do Sol. No videoclipe da música Espinafre, lançado no dia 20 de fevereiro, pelo cantor Brandão, é possível ver o Mara Hope com o pixo da F.O.X. A proporção foi tanta que a produtora 30praUm convidou o grupo para ir ao estúdio. No presente momento, 7 de abril, o clipe está fora de ar.
“No caso né, o intuito do que a gente queria fazer era para o pixo né? Só que tomou uma proporção fora disso!”, observa SOSÔ.
O mundo do pixo em Fortaleza é como uma árvore, e uma de suas raízes está no vandal, ao qual a Feras of Xarpi faz parte. Xarpi, inclusive, vem de um código: “é pixar ao contrário”. A polícia seria quem tenta cortar esta árvore. SOSÔ já “rodou” com a polícia e foi agredido, repreensões comuns em quem sonha que a rua é espaço de mudança.
Dessa violência constante, surge a raposinha. Ela se tornou um álibi, era a abertura do graffiti para a entrada do pixo. O símbolo repercutiu pelas cidades, tornando o coletivo reconhecido pela raposa.
“A minha filha é mó fã de vocês, faz uma raposinha para ela, que ela gosta”, era o que SOSÔ passou a escutar nas ruas. Até receber um uivo paulista.
O pixo vandal em Fortaleza é uma forma de grafismo urbano ilegal, caracterizada por inscrições feitas em espaços públicos e privados sem autorização. Diferente do grafite artístico, o pixo é frequentemente associado à contestação social e identidade de grupos marginalizados, sendo visto por muitos como vandalismo.

Raposinha - Foto: fox._8x / Reprodução: Instagram
Negro M.I.A pixa as ruas de São Paulo usando extintor. Mira sempre nas grandes empresas, “só loja de playboy, só enquanto manifesto cruel mesmo”, explica SOSÔ. O artista, presente no último álbum de lançamento do cantor Matuê, entrou em contato com a F.O.X após ver o pixo no Mara Hope.
“Aí o Mia se hospedou lá no Marina Park Hotel, ele viu logo o Mara Hope. Ele ficou: eita cumpadi! Mah, quem são esses caras aí?”, conta SOSÔ após ter riscado com M.I.A por Fortaleza. Ficou com as tintas do paulista, já que não podia levar a lata no avião. Um dos planos para a F.O.X é começar a usar o extintor também como forma de pixar os muros.
O MAR(A) ESTA PARA PIXO, O SISTEMA NAO.
Com nenhum apoio governamental, a F.O.X realizou uma intervenção de arte urbana em um dos cartões-postais de Fortaleza, mas essa não foi a primeira vez que uma tinta escorreu pelo navio. Na 2º Edição do Festival Concreto de Fortaleza, realizada em 2015, Nacélio Grude grafitou o Mara Hope.
O evento promovido é uma realização da Amplitude – Escola de Arte Urbana, Flexos Artes e Instituto Ambiente Cultural e Inclusão Social – IACIS e Ministério da Cultura. Além de patrocínios e apoios de empresas privadas.

Obra realizada no Festival Concreto

Obra realizada no Festival Concreto

Obra realizada no Festival Concreto

Obra realizada no Festival Concreto
Embora Nacélio e SOSÔ tenham um espaço de intervenção em comum, o graffiti de Nacélio não quer se encontrar com o pixo. “Aí eu queria só mostrar pra ele que a gente foi lá também, a gente é uma galera de pixo e foi lá. Eu queria só um contato para poder trocar uma ideia assim, não, ele nem queria”, relata SOSÔ.
“O foco não é ser rei, é revolução” foi uma das frases que SOSÔ já colocou na parede para expor uma mente ainda liberal na arte urbana: o de querer dominar todos. “O rei da Leste, o Rei da Francisco Sá, eu sou o melhor”, a F.O.X não ancora essa ideia, nem tampouco a rivalidade entre Grafitti e Pixo.
Até no mar, se é certo: o foco são as ruas.
“Então já é uma parada feita pela prefeitura, já tá no sistema, ele já tá saindo da rua. Deixa ele, deixa essa galera. Porque o que a gente faz é para rua mesmo”