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A CENA DO “VANDAL” FEMININO EM FORTALEZA ENTRE RISCOS E RESISTENCIA

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A palavra “vandalismo” carrega uma conotação negativa, associada à ideia de danificar propriedades sem permissão. Contudo, para as Vandal Girls Crew (V.G.C), essa definição é uma expressão que reivindica a cidade

Por Yasmin Louise Szezerbatz

Foto: Cunhã / Reprodução: Acervo Pessoal

Na calada da noite, a cidade dorme, mas elas não. Entre o chacoalhar das latas e os becos estreitos, silhuetas se esgueiravam em uma rapidez felina. Sabiam se mover no escuro, sabiam cair de pé e, acima de tudo, sabiam deixar sua marca. O muro escolhido era alto, mas nada que uma boa estratégia e um pezinho bem dado não resolvesse. As letras começavam a ganhar forma enquanto o cheiro de tinta se misturava à maresia típica de uma cidade litorânea como Fortaleza. O último traço foi feito, e no concreto estava estampado: V.G.C, a sigla de “Vandal Girls Crew”.

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Foto: Cunhã / Reprodução: Acervo Pessoal

Nos muros das cidades, em viadutos e nas fachadas de prédios abandonados, a arte de rua conhecida como "vandal" se manifesta como um grito visual, reivindicando a cidade. Para alguns, trata-se de expressão artística legítima; para outros, não passa de vandalismo. Mas afinal, onde está a linha entre a arte e a subversão?

Para Cunhã, como é chamada nas ruas e preferiu ser identificada assim, grafiteira e líder do coletivo Vandal Girls Crew (V.G.C) em Fortaleza, essa linha é fluida.

“Para ganhar, eu sou grafiteira. Mas para me divertir, incomodar a sociedade, quem não acredita na gente, eu sou vandalista", afirma.

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O vandalismo, na sua visão, é uma forma de ocupação sem pedir permissão, uma maneira de deixar sua marca onde quiser. "É arriscado. Nem todo mundo faz. Mas eu me desafio a melhorar e a sempre deixar minha marca. A Cunhã".

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Até 2011, o graffiti e a pixação eram considerados crimes no Brasil pela Lei n.º 9.605. Promulgada no final da década de 1990, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, a legislação previa como crime "pichar, grafitar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano". Esse cenário mudou quando a então presidente, Dilma Rousseff, sancionou uma nova lei que permitia a prática do graffiti se "realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística, desde que consentida".

A entrevista aconteceu na Praia do Poço da Draga, em Fortaleza. Sentadas na areia, de frente para o mar, Cunhã e Pantera, outra integrante do coletivo, seguravam uma sacola cheia de tintas spray. Mais tarde, sairiam sem destino certo, junto das demais integrantes da sigla para encontrar uma "tela" na cidade. "A gente não sabe para onde vai, só sabe que vamos fazer vandal".

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Praia do Poço da Draga - Foto: Xaio Lopes / Reprodução: Acervo Pessoal

O PESO DE SER MULHER NA CENA

O Vandal Girls Crew (V.G.C) surgiu em Manaus (AM) e se espalhou para outros estados.

Em inglês, crew significa tripulação e, no universo do hip-hop, é usado para se referir a 
um grupo de artistas. Na cena do graffiti
brasileiro, esses grupos são
chamados de “siglas”, e seus integrantes assinam suas obras com elas.



                                          Desde de 2019, Cunhã se dedica à arte urbana, mas foi em 2022, em uma viagem para Manaus, que
ela entrou em contato com a galera do pixo. Já em terras alencarinas, Cunhã foi a responsável  por iniciar o coletivo a convite da líder amazonense, que se tornou um espaço de união entre mulheres do vandal. "Antes, eu convivia bem mais com homens, até perceber que queriam me deixar na sombra. Agora, aprendi a unir forças com outras mulheres. O tempo todo tentam apagar a gente".


A identidade na rua se constrói com tinta, mas também com nome. Cunhã começou assinando NVH (Novinha), mas nunca gostou. "Os caras me chamavam assim, e sempre me remetia a algo sexualizado e diminutivo". Ela lembrou do “vai novinha”, comum nos funks da época. "Quando fui para Manaus, escutava 'Cunhã' pra lá e pra cá, e isso me trouxe uma memória de infância. Minha avó me chamava de Cunhã Ruim. Foi assim que escolhi". Cunhã significa moça, menina.

Outras siglas femininas em Fortaleza: Terroristas da atitude (T.D.A), Gatinhas Armadas de Tala (G.A.T).

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Localização da cidade de Manaus em Amazonas - Foto: Google / Reprodução: Wikipédia

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V.C.G em Mossoró, Rio Grande do Norte (RN) - Foto: Cunhã / Reprodução: Acervo Pessoal

Para muitas artistas mulheres, a luta vai além da arte – é uma luta por espaço. Pantera reforça o peso do machismo na cena. "A gente só aparece quando eles querem. Eles vão nas melhores fitas sozinhos e só chamam a gente quando convém mostrar que apoiam as mina". Além disso, grupos fechados criam barreiras entre a socialização dentro da própria comunidade. "É uma disputa grande. Sempre tem aquele grupinho fechado que exclui os outros. Eu me sinto de fora muitas vezes. Mas continuo ocupando espaço, mostrando que existo nessa porra", afirma Cunhã.
 

A mensagem que Cunhã deixa para quem quer entrar na cena é clara: “Aprenda a ser mais acolhedor. A galera é muito individualista, exclui quem não está na panelinha. Saber entrar, ser humilde. Mesmo que esteja em destaque, continuar sendo humilde".

"Porque no fim, quando você morrer, o que vai ficar além do seu nome na parede?”

ENTRE A ARTE, A MARGINALIZACAO E A VIDA DUPLA

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Para Pantera todas essas vertentes merecem respeito,

cada uma dentro de seu espaço e contexto.


E não é só nesse sentido que existe a vida dupla. Cunhã é uma artista autodidata,

gosta de estudar o realismo e estampar nos muros rostos de pessoas que normalmente

não são vistas, mas que fazem parte da cidade. Por outro lado, quando está sendo levada

pelo vandal aos desconhecidos becos e vielas de Fortaleza, ela aposta em traços mais simples, sem sombras e menos cores. Isso porque você precisa ser rápido; o vandalismo é um risco.


“Trabalhar em grupo é essencial. No vandalismo, estar sozinha é arriscado. Ter alguém para apoiar, dar um pezinho, ficar de vigia… faz toda a diferença”, destaca Cunhã. Pantera e ela se conhecem desde 2021 e já fizeram vários trampos e projetos juntas. Foi uma amizade que foi além da cena. Pantera não pinta mais após presenciar uma pessoa próxima levando um tiro enquanto grafitava e hoje prefere ficar mais na organização. Mas, se você tiver o olhar atento, vai ver sua girafa em algum lugar da cidade. Vou dar uma dica: em um muro em frente ao antigo edifício São Pedro.


Apesar das dificuldades, o desejo de ocupar a cidade e deixar sua marca continua sendo o maior combustível para quem atua na cena. Para as gatas do vandal, a rua é escola, é palco e é resistência. “Não tem um espaço para ensinar a ser vândalo. É a rua que ensina. Ela que te faz fazer seu nome e representar”, reflete Cunhã, deitada na areia entre suco de maracujá e a brisa do mar. 

No Complexo da Serrinha, onde Cunhã mora, ela,

Pantera e outros artistas organizaram um mutirão para

revitalizar os becos da comunidade. "Os moradores

pediram para evitar o pixo e priorizar o bomb e o mural.

Fomos com o objetivo de dar vida ao lugar, tirar um sorriso

dos moradores, que não precisariam mais ver aquele muro

caindo aos pedaços".


Pantera explica que o graffiti é mais associado ao

embelezamento, mas existem diferentes formas:

"Tem a tag, o estêncil, a persona ou boneco, o

muralismo, o estilo livre, o bomb, que também

é vandal…", enumera. Por outro lado, destaca

o xarpi com suas letras estilizadas, explicando que

a pichação também faz parte do vandalismo.

Feita sem permissão, a arte "vandal" enfrenta a repressão das autoridades e uma forte polarização na opinião pública. Para uns, é arte de resistência; para outros, é degradação urbana. No entanto, isso não interfere no valor de cada intervenção. A arte não depende da aprovação estética alheia, mas sim da manifestação pessoal ou coletiva, como afirma Cunhã. Ela transmite um pensamento, evoca subjetividades ou qualquer outra intenção do autor – até mesmo quando não há uma intenção definida.


Alguns artistas que atuam tanto na pixação, quanto no graffiti, também participam de projetos e editais de arte. No entanto, o preconceito contra o vandalismo, muitas vezes, os obriga a esconder ou até abandonar essa parte de sua expressão artística. Cunhã, por exemplo, tem um Instagram pessoal onde também posta sobre graffiti, um Instagram de trabalho onde compartilha exclusivamente graffiti e outro Instagram só de vandal, onde não mostra o rosto.
 

Ainda assim, há momentos em que os dois mundos se encontram.

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Faz parte do vocabulário em código criado nas ruas cariocas: a língua do TTK, originada nas prisões e difundido no bairro do Catete pelos pichadores com o objetivo de confundir as demais pessoas. As palavras são escritas ao contrário e têm suas sílabas invertidas. “Xar-pi” / “Pi-xar”.

Localização do bairro da Serrinha em Fortaleza - Foto: Google / Reprodução: Wikipédia

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Praia do Poço da Draga - Foto: Xaio Lopes / Reprodução: Acervo Pessoal

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