

O som do metrô se mistura ao estralado da chinela no asfalto. Valentina, vulgo Peligrosa, se aproxima quase desfilando, deixando para trás o viaduto. O cheiro de cabelo recém-lavado chega primeiro, antes do olhar afilado, do septo furado, da camisa preta com estampa da cantora Doja Cat. O rosto é tímido, mas o corpo caminha sem hesitação até a parede cinza.
Acomoda os potes de tinta, de cores rosa e laranja, e começa a pintar em silêncio. Sua arte não pede licença, se espalha. Para ela, ser artista urbana não é apenas assinar muros, mas levar sua persona para o mundo. É um traço agressivo e farto de cor, porque esconder – se nunca foi uma opção. Criou sua personagem com raiva – raiva do que pensam dela, raiva que vira tinta.
Peligrosa não quer moldar a cidade; quer rasgá-la, sobrepor sua versão da realidade ao concreto pálido. Enquanto trabalha, alguém passa e sorri. A imagem já começa a dizer algo, mesmo inacabada. Ela percebe os olhares, sabe que a cidade lê, que absorve suas mensagens mesmo sem querer. E se alguém não gostar, se quiser apagar, ela já aprendeu: a tinta pode sumir, mas a marca fica.
Confira a entrevista:

