
Ao adentrar a Avenida Vicente de Castro, sua presença é predominante. Talvez menos agora. Mas, de longe, escutam-se os martelos e o som metálico de algo sendo construído ou, melhor, restaurado. O Farol do Mucuripe, em Fortaleza, é histórico e antigo. Conta a história de uma capital ainda colonial, de 1846. E hoje, suas paredes, corroídas pela maresia e descascando o que antes era um mural de arte, refletem a realidade das comunidades ao seu redor. Um bairro artístico, ativo e resistente, assim como seu Farol, que vigia a ponta da cidade.
Mas, recentemente, o vazio se instaurou ali. Sem mais o som da construção ou a visão dos trabalhadores vestidos de azul andando pela sua extensão. As obras, iniciadas pela Secretaria de Turismo do Ceará (SETUR), estavam previstas para se encerrarem em maio, mas foram suspensas pela falta de mais da metade dos trabalhadores necessários para continuar.
O descanso durou pouco. Em algumas semanas, já era anunciada no jornal O Povo a denúncia feita pela própria comunidade. O Farol não ia ser esquecido. A Comissão Titan, que denunciou a paralisação, é a mesma responsável pelo início da sua reforma.
A restauração do Farol acontece desde setembro de 2024, quando a comunidade se juntou, e cada um levou sua própria tinta para as intervenções que seriam feitas no local. Os moradores, já cansados do esquecimento por parte do Estado, pintaram o patrimônio de preto em referência ao luto, além de diversas frases de efeito, como “Bem-vindo ao abandono”.
A Comissão Titan é uma organização dedicada à defesa do litoral de Fortaleza, Ceará, atuando ativamente na preservação da zona costeira e na mobilização popular contra sua privatização. Engajada em articulações estratégicas, a comissão já participou de reuniões com o GT de Oceanos e o GT de Povos e Comunidades, buscando alinhar ações e fortalecer redes de resistência.
Com o compromisso de proteger o território e garantir o acesso democrático às áreas litorâneas, a Comissão Titan trabalha para engajar a população, fortalecer a luta contra a apropriação privada das praias e construir alianças com outras organizações sociais em prol de um litoral mais justo e acessível para todos.
O artista responsável pela frase foi Wryel Carlos, mais conhecido como Mad Max na cena urbana de Fortaleza. Também morador da comunidade, luta desde sempre contra o descaso da cidade com o Farol, já que esta não foi a primeira intervenção feita por ele.
Em 2018, aconteceu a quinta edição do Festival Concreto que juntou artistas dos mais diversos lugares do mundo. Entre a presença de alemães, argentinos e outros fortalezenses, estava Mad, envolvido na polêmica que rodeou a iniciativa. A grande discussão ocorreu porque o Farol é um patrimônio tombado pelo Decreto nº 16.237, desde 1983, o que, em tese, impediria qualquer pintura em sua estrutura.
O Festival Concreto é um dos maiores eventos de arte urbana da América Latina, realizado em Fortaleza, Ceará. Desde sua criação, reúne artistas locais e internacionais para intervenções em espaços públicos, promovendo o graffiti, muralismo e outras formas de arte urbana**. Além de transformar a paisagem da cidade, o festival incentiva o diálogo sobre identidade, ocupação do território e valorização da cultura de rua.
Wryel "Mad" é um ativista comunitário, articulador, artista visual e cenografista cuja trajetória se entrelaça com a luta e a identidade do Titanzinho, em Fortaleza. Desde 2009, expressa sua voz através do graffiti, transformando muros e espaços urbanos em narrativas de resistência. Sua arte vai além da estética, servindo como um instrumento de mobilização e denúncia, reforçando o papel da cultura na defesa da comunidade e do território.
“É, vocês são todos arquitetos, não pode porque é tombado, e cadê? Por que vocês não trouxeram tinta para pintar? Para deixar bonitinho e tal? Cadê vocês? Para visitar, para incentivar, para chegar aqui, para tirar foto? Têm tudo medo. Quem está fazendo isso aqui somos nós”, a revolta em sua voz ainda é perceptível, mesmo depois de seis anos desde o evento.
O objetivo da intervenção era abrir os olhos de Fortaleza, como conta Mad. O Farol, presente na bandeira do Ceará, estava abandonado e servia como reflexo de como o Estado tratava a população na época.
Mas, desde então, Mad foi se afastando do graffiti. Um dos motivos é a falta de reconhecimento de suas intervenções, tanto no festival quanto no protesto de restauração. “Eu tenho uma coisa minha com esse Farol, que eu começo as coisas lá, o pessoal rebola para os outros. Nunca chega a mim, é impressionante”, diz ele. Mad é um dos poucos artistas moradores da comunidade que participaram do festival e o único que não teve a foto de sua arte publicada no livro da edição.
Suas queixas com o graffiti em Fortaleza vão além. Mad confessa que sente vergonha de se chamar de grafiteiro e prefere o termo artista visual. Ele remói um sentimento saudosista em relação à arte que usava como voz nas ruas. Para ele, a cena atual foi gourmetizada. “Botaram leite condensado no dindim, velho. Verdade é essa”, diz sem papas na língua, sem esconder o desgosto com os novos artistas que surgem na cidade.
Ele vê a arte urbana atual como um verdadeiro circo, onde, segundo ele, não existem mais artistas autênticos no graffiti. Sua régua para essa avaliação é o quanto a arte incomoda. Para Mad, esse é o verdadeiro sentido: pintar muros e colocar a mão na massa, mesmo que de maneira independente. Ele lembra de quando bancava grandes murais do próprio bolso. Hoje, poucos grafiteiros ainda fazem isso.
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Atualmente, Mad tem focado em trabalhos comerciais, explorando o graffiti em ilustrações, telas e esculturas /Foto: Isabella Pascoal
Ele vê os editais e curadorias como um empecilho. O que deveria ajudar, na verdade, complica o simples ato de fazer arte e exclui aqueles que fazem parte da cena há muito mais tempo. “É uma galera que veio da tela. Não veio da arte urbana”, ele completa.
Apesar de suas críticas, a rua segue sendo um espaço de disputa. Isso não muda. Com camadas de tinta sobrepostas, a cidade se transforma conforme novos artistas surgem.
Foi o que aconteceu na última intervenção no Farol, que cobriu a arte pintada durante o festival. Questionado se os grafiteiros se incomodaram com a nova camada de tinta, Mad responde com ironia, lembrando que eles nunca mais pisaram na comunidade. Novamente esquecidos, ele e os moradores se enxergam no abandono do Farol.
DESCULPE, ESSE NAO E O CEARA QUE VOCE CONHECE
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“O primeiro graffiti do ‘Farol Velho’ do Mucuripe” /Foto: Reprodução Instagram @mad.corporation
Quando criança, para Dudé, o Farol era um castelo. Alguns amigos subiam até o topo e fingiam ser reis, enquanto outros permaneciam na antiga jangada de madeira na praia, como piratas prestes a invadir o local. Já adulto, sua batalha de “faz de conta” se tornou real. Mas, em vez de proteger a comunidade de criminosos marinhos, ele lutava contra a remoção.
No mesmo ano do Festival Concreto, em 2018, a comunidade do Titã amanheceu com números marcados em suas casas. A identificação indicava que as moradias estavam sendo catalogadas para remoção, em prol do projeto Aldeia da Praia. O plano previa a construção de um novo calçadão e estacionamento à beira do Farol.
Foi então que Antônio José, mais conhecido como Dudé no bairro, reuniu quem pôde e deu início à escrita de um Plano Popular pela permanência da comunidade. Entre reuniões e oficinas, os moradores construíram um documento com mais de 100 páginas em defesa de suas casas e de sua história na Rua Titanzinho.
Projeto Aldeia da Praia foi uma iniciativa da Prefeitura de Fortaleza, em 2019, que previa a remoção de aproximadamente 200 famílias da comunidade do Titanzinho, alegando que estariam em uma área de risco ambiental. O projeto incluía a construção de um novo calçadão e estacionamento à beira do Farol do Mucuripe, além de outras intervenções urbanísticas.
A justificativa da Prefeitura para a remoção foi contestada pela comunidade e por assessorias técnicas, que apontaram que o laudo apresentado não tinha validação técnica e que os moradores não estavam realmente em risco. Um contra-laudo elaborado por especialistas refutou a argumentação oficial.

Para Dudé, o Farol é mais que uma construção; é um castelo, um símbolo de paixão pela comunidade e pela praia /Foto: Isabella Pascoal
O Plano Popular foi estruturado em seis eixos principais, abrangendo o mapeamento das áreas de alagamento, a exigência de melhorias habitacionais, como iluminação, ventilação e saneamento, além da readequação das ruas estreitas para facilitar o acesso a serviços públicos. Também destacou o reconhecimento cultural da comunidade e o apoio às manifestações artísticas e culturais espalhadas por ruas, praças e becos, consolidando os princípios que sustentam o plano.
“Tudo que foi de coisas que a prefeitura dizia que era ruim, a gente mostrava que não era”, conta Dudé, enquanto caminha pelas mesmas ruas que conseguiu manter de pé com a ajuda do plano. Nas casas, placas de metal agora explicam o conteúdo do documento e substituem as numerações que antes marcavam os imóveis destinados à remoção. Além de um símbolo de resistência, elas também garantem informação acessível para quem, antes, não compreendia o que estava acontecendo.

A comunidade pintou faixas e placas para marcar a presença de quem vive, tem história no bairro e luta para permanecer /Foto: Isabella Pascoal
O cenário era de cerca de 240 famílias desabrigadas com a remoção, enquanto, ao fundo, os moradores viam seu maior símbolo se deteriorar: “A gente não sai e também vamos tentar reconstruí-lo, né? Restaurar”, relembra Dudé. Além da reforma, eles exigiam que 30% da comunidade fosse empregada na obra, garantindo que a revitalização do Farol também significasse trabalho e dignidade para os moradores. A luta era dupla, mas também movida pela paixão. A comunidade era um corpo, e seu coração pulsava ali.
Com a reforma, o movimento ao redor do Farol ganhou força. O espaço se tornou palco para reuniões e exposições, atraindo a própria comunidade e visitantes. Em um dos eventos, segundo Dudé, chegaram a se reunir 5 mil pessoas. Essa mobilização também impactou a economia do bairro: à noite, os moradores montaram barraquinhas e pagaram cinco reais para se alojarem no local, um valor que era revertido para a limpeza ao final das festividades.
Desde 2011, a Mostra Audiovisual do Titanzinho também faz parte desse movimento da comunidade. A Mostra acontece anualmente e mapeia as produções audiovisuais realizadas em diferentes formatos. “Nós entramos em contato com uma produção muito grande de material audiovisual nesse bairro, a ponto de a própria estudante de cinema não ter ideia de que existia tanta produção lá”, conta Deisimer Gorczevski, professora e pesquisadora do Instituto de Cultura e Arte (ICA) da UFC.
Essa descoberta transformou o propósito da Mostra. O objetivo deixou de ser apenas criar novos materiais, passando a também resgatar e exibir as produções já existentes na comunidade. Para Deisimer, o bairro é um movimento artístico pulsante, onde o cinema, o graffiti e a fotografia se entrelaçam, refletindo o desejo coletivo de expressão. O Farol ilumina e amplifica o que a comunidade tem de mais intenso e artístico para compartilhar.
E a arte não está restrita a um único espaço. Quem olha para a comunidade a partir da praia vê um mosaico de cores formado pelas casinhas verdes, vermelhas e amarelas, parte de um projeto que a Comissão Titan deseja expandir para todo o bairro. Pelas esquinas, diferentes expressões artísticas se fazem presentes, desde teatros de fantoches até intervenções escritas por crianças na época das remoções. Lembranças vivas da resistência e criatividade que marcam o território.

"NAO E PRA GENTE"
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As pinturas feitas pelas crianças, resultado de oficinas, estão próximas ao local onde acontecem as reuniões da comunidade /Foto: Isabella Pascoal
Apesar das conquistas, os moradores seguem na luta contra o abandono da comunidade. Além do recente descaso com a reconstrução do Farol, as áreas de lazer foram deixadas pela metade, algumas nunca finalizadas e outras sem qualquer manutenção por parte do Estado.
Dudé critica as Areninhas, que ele apelida de “areinhas” devido ao estado precário em que se encontram. A duna cresceu a ponto de quase alcançar os vestiários, tornando impossível o uso do espaço pelos jovens da comunidade. O recém-instalado calçadão e espigão também permanecem inacabados, sem iluminação e sem barras de proteção para os pedestres.
Em nota, a Secretaria de Turismo de Fortaleza informou que a Areninha faz parte da obra da Usina de Dessalinização. O terreno é de responsabilidade da Superintendência do Patrimônio da União no Ceará (SPU) e do Governo do Estado, mas não foram fornecidos novos detalhes sobre a situação do local.
Mad, como morador da comunidade, entende que essas construções não são feitas para eles, já que a ideia original sempre foi a remoção das famílias. “Não é pra gente. É isso que os cactos falam”, diz ele. A planta, que se tornou sua marca registrada, simboliza tanto a beleza da resistência quanto a força da memória, crescendo mesmo em terrenos áridos, assim como sua comunidade.

Resistência que se transforma em beleza — na luta, na memória e em tudo que a comunidade constroi e preserva /Foto: Isabella Pascoal
A luta e a resistência ainda fluem como riachos pelas gerações. Mad se recorda das palavras de seu avô, que comparava os moradores a um "pé de espinhos": Você arranca no pé, ele vai nascer da mesma raiz, só que só um pouquinho de lado.”, e essa é a essência do Titanzinho.
